domingo, 8 de março de 2009

Livra-me


Num cômodo escuro, Thelma agonizava em dor. Teria passado longas horas com os seus carrascos e agora tentava descansar. Longas horas de espancamento e estupro. Os olhos inchados com rodelas de hematoma desfiguravam o seu rosto e sentia a pele em fogo. No seu inconsciente ouvia vozes pouco nítidas que repetiam a mesma palavra. Vazio. Os maus espíritos da loucura a dominava e Thelma não tinha forças para desvencilhar-se desse mal. A imagem do homem chutando o seu rosto e depois rasgando a sua roupa persistia em massacrá-la. O grito seco reproduzia um ruído de dor. “Deus, por favor, não deixe que eles voltem”. Na boca ensangüentada, murmúrios desesperados brotavam em gotas de sons. “Em ti, Senhor, confio; nunca me deixes confundir. Livra-me pela tua justiça”. “Livra-me, meu Senhor”. “Livra-me!”.

Apática Thelma já não se encontrava no mundo real. Em devaneios tortos se via na mão da morte e o diabo era o seu serviçal. O sentimento de culpa espalhou-se pelo seu corpo causando repulsa por si mesma. O sangre coalhado do seu rosto atraíram insetos desejosos em sobreviver com os restos de vida de Thelma. “Eles vão me matar”. “Vão me matar”. A mão trêmula adotou um comportamento deteriorado, estranho, enquanto a sua boca balbuciava palavras confusas. O farrapo humano respirava ofegante.

No seu estupor temporário a sua alma navegava em fatos de sua vida. Uma nesga de lembrança levou-a a sua infância. “Thelma vai morrer”. “Thelma vai morrer”. Era o que garotos gritavam enquanto Thelma estava em desvantagem no jogo que conhecia como queimado. “Vai, vai! Pega ela!”. Eram dois contra um. Suas amigas estavam todas no outro lado presas e impotentes perante a habilidade agressiva dos garotos. Era preciso pegar a bola e acertar nos seus oponentes, porém ela não tinha chance. Ficava de um lado para outro fugindo das bolas que disparavam como um foguete em sua direção até uma atingir em cheio o seu rosto. O sangue jorrou do seu nariz. “Morreu!!!”

Um barulho veio de outro cômodo. Tentou se concentrar no som, mas tinha dificuldade em fazer uma ligação lógica do que ouvia. A luz do quarto foi acesa. Pouco deu para perceber a luz com suas pálpebras inchadas. Dois homens entraram. Ela recuou até a parede. Sabia que seu corpo não agüentaria mais uma seção de tortura. Havia um objeto na mão de um dos homens. Não deu para saber o que era. Ele ergueu a pá e com um gesto definitivo esmagou o crânio de Thelma.

Na rua chovia muito. Uma luz imperceptível trafegava lentamente em direção ao seu destino. A morte chegou para Thelma de forma trágica e agora seu espírito bailava se desvencilhando das tristes gotas da chuva.

sábado, 7 de março de 2009

Friedrich Engels e Aristóteles no Domínio Público



Friedrich Engels
  1. Sobre o Papel do Trabalho na Transformação do Macaco em Homem
  2. Sobre a Comuna
  3. Sobre a Autoridade
  4. Prefácio à Edição de 1895 da Crítica do Programa de Gotha
  5. Mensagem do Comitê Central à Liga dos Comunistas
  6. Manifesto Comunista
  7. Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico
  8. Carta a Karl Kautsky
  9. Carta a Augusto Bebel
  10. Anti-Dühring
  11. A Pérsia e a China
Aristóteles
  1. Arte Poética
  2. Tópicos

Deus: Infinito ou ilimitado?

INCURSÃO NA ONTOLOGIA DIVINA



No academicismo teológico ouve-se, frequentemente, alegações com fortes implicações teológicas e filosóficas. E isto é importante pois, do contrário, como entenderemos o mundo que nos cerca? Sabe por que vivemos no paradoxo atual de uma ciência que baseia-se em fé.. e renega a "fé" pela alegação de que esta destrói a base daquela? Porque simplesmente pensa-se cada vez menos sobre o mundo que nos rodeia. Eis a importância de bons estudos teológicos e filosóficos - valendo-me das palavras de certo catedrático - "Não é o que fazemos com a Filosofia (e atrevo-me a dizer "com a Teologia", também), mas o que ela(s) faz(em) conosco". Esta falta de percepção e acuidade pode iludir a todos, não se engane. Desde os mais iletrados, aos que se auto-intitulam "informados"... desde os incaltos aos doutores, desde os analfabetos aos professores. Uma visão de mundo que faça sentido precisa ser consensual às bases do pensamento dito racional. Assim, até as críticas serão verdadeiramente construtivas. Do contrário, tudo, tudo mesmo, redunda em achismos, unilateralismos, jactâncias(*), minimalismos, nada mais.

Afirmo, também, que nossas frases prontas para "definirmos" a Deus, por si sós são insuficientes, pois não alcançam todos os meandros da realidade. Se a realidade existe com Deus que é ilimitado, toda a realidade é ilimitada, sendo necessária uma sucessão infinita de pensadores para, através de tentativas e erros também infinitas, chegarem a uma conjectura satisfatoriamente compreendedora de Deus, o que é realmente impossível. Mas, infelizmente ou felizmente, precisamos perscrutrar sobre os absolutos, e os que me refiro aqui são as bases do nosso sistema epistemológico, como um todo. Logo, afirmar que não há absolutos, por si só já é um contrasenso, pois tal frase é, supostamente, absoluta (ou absolutista). Absolutos existem, e isto é absoluto. Precisamos deles, pois com os mesmos definimos a realidade que nos cerca. Observe que disse "definimos" e não "construímos", pois a realidade é, e não pode ser uma ilusão. Do contrário a própria ilusão seria ilusão, outro contrasenso.

Precisamos de frases que digam alguma coisa sobre Deus, pois pressupomos a sua existência congniscível. Descartes, há muito, já especulara sobre isto, falando do "perfeito vindo ao imperfeito". É deste ponto que pegamos nossa carona - o que quer dizer perfeito? Quando dizemos que Deus é perfeito geralmente nos referimos aos atributos morais, pois tal palavra encontra ampla aceitação de tal sentido no vocabulário popular. "Perfeito" é alguém que ´não erra´, é alguém moralmente insulperável, um bastião irrepreensível de benignidade. Mas, "perfeito" é muito mais do que isso. Quando transpomos o vocábulo para objetos, observamos que a palavra toma uma conotação de estética. Claro, nos jargões populares não há ética em objetos...mas isto não é verdade. As bombas que caíram sobre as cabeças dos líderes talibãs não foram melhores em si mesmas do que as que o Hezbolah atira sobre Israel, apesar de seus contextos serem completamente distintos. Logo, observamos que temos uma responsabilidade, sim, quando definimos a realidade: Ela precisa ser corretamente definida.

Se precisamos definir bem a nossa realidade, a que chamaremos desta feita em diante por "Criação", o que se dirá do Criador? Como definir o Criador? Este já foi um assunto reservado à metafísica, ou seja, algo exclusivo de filósofos e teólogos teístas. Mas, em uma época de design inteligente(*), evolucionismo, teísmo aberto(*), universos paralelos, descontrucionismo(*) pós-modernista, física quântica associada à filosofia oriental mais do que nunca precisamos saber definir bem nossa realidade, os propósitos da mesma, e tudo nos leva à direção do Criador, a mente que de forma ilimitada, pensou e executou aquilo que pensamos serem infinitas possibilidades de existências e organizações no Universo. O quê podemos dizer sobre Deus que corresponda à realidade, dentre tantas outras vozes? A Bíblia não se preocupa em definir ou argumentar sobre a existência de Deus. "No início criou Deus os céus e a terra", começa o livro de Gênesis, apresentando Deus. Ao contrário, poderíamos afirmar que, se há alguma preocupação bíblica neste aspecto, não é com a existência de Deus, mas com os que pensam em sua inexistência: "O ímpio, na sua soberba, não investiga. Não há Deus são todas as suas cogitações" (Sl. 10:4). A Bíblia nos diz muito sobre Deus, e com algo do que ela diz podemos tecer alguns pensamentos que deem-nos uma visão de algo definido sobre o Criador (visão incompleta, asseverarão alguns... é verdade.. mas mesmo assim, uma visão).

Quando, baseado na Bíblia ou não, o homem imagina Deus como sendo necessariamente infinito, algo está querendo se dizer com isso, mesmo que a maioria dos que afirmem tal coisa não faça uma boa idéia do que está se dizendo. Não digo isto presunçosamente, digo o que é realidade. Como professor já pude me deparar com debates acalorados sobre a natureza da realidade que perderam seus própósitos, não porque os debatedores eram incompetentes mas porque deixaram-se levar pelo subjetivismo perigoso e avesso ao objetivismo necessário para analisarmos, por exemplo, o quê estamos querendo dizer com infinito, realmente. Deus é perfeito porque é infinito? Pode ser... Deus é perfeito necessariamente porque é infinito? Com certeza não! O que este necessariamente implica para que a respsta a esta pergunta difira da outra? O fato de atribuirmos perfeição a Deus por causa apenas da sua infinitude. E infinitude não é motivo mais do que suficiente para, necessariamente, atribuirmos perfeição a Deus? Não, pois se assim fosse, o conjunto dos números racionais, ou irracionais, ou inteiros teriam de ser divinizados, posto que TODOS são infinitos. Apesar de muita coisa, para perfeição, "infinito" não significa coisa alguma.

O infinito, portanto, não é pefeito? Não (que o digam os conjuntos dos números). Mas Deus tem de ser infinito, pois do contrário não poderá ser perfeito. Isto porque o perfeito é infinito. Explico: Quando falamos que algo é "perfeito", como disse no início, estamos nos referindo a partes da realidade. E algumas destas partes são completamente arbitrárias - como a estética de um tempo. Algo pode ser considerado perfeito esteticamente, mas imperfeito em vários outros aspectos (imagine um prédio aparentemente impecável, visualmente perfeito, mas com sérios problemas de fundação). Infinitude, portanto, é substituída por uma terminologia mais satisfatória, justamente por ser mais abrangente (o trocadilho destacado é proposital) - ilimitação. Quando dizemos que Deus é perfeito porque é infinito, vimos que tal afirmação pode condizer com a realidade, mas quando inserimos a palavra necessariamente (Deus é perfeito necessariamente porque é infinito), a condição da possibilidade desfaz-se, sinalizando que infinitude não é sinônimo de perfeição (mesmo que pareça o contrário). Quando, porém, inserimos a palavra ilimitação o problema rapidamente se desfaz, e, tanto o possivelmente quanto o necessariamente encontram adequações: "Deus é perfeito porque é necessariamente ilimitado". Valho-me do segundo exemplo, de antemão, pois o mesmo engloba o primeiro.

Como se pode testar o axioma? Como na falsificabilidade popperiana(*), penso que a melhor maneira é tentando falseá-lo. A mesma é falseável? Claro que em termos empíricos, não. A pergunta, retórica, refere-se a termos filosóficos. Esta pergunta tem, portanto, algum valor? Com certeza, pois se uma filosofia não explica algo não é filosofia mas qualquer conjectura vazia. É neste sentido que uso o termo. Logo, podemos perguntar melhor: Pode-se imaginar algo contrário ao que pretendemos dizer - "Deus é perfeito necessariamente porque é ilimitado?". Para responder esta pergunta é necessário que saibamos qual é a negativa da questão. "Deus "não" é perfeito necessariamente porque é ilimitado?". Necessariamente, não. Observe que esta não é a resposta obtida quando substituímos ilimitado por infinito: Deus "não" é perfeito necessariamente porque é infinito? "Sim!!". Você pode (e talvez deva) estar se perguntando: "Por que ilimitado é uma terminologia melhor?". Porque ilimitado transita melhor, creio eu, entre os mundos do subjetivo e objetivo. E, quando nos referimos ao objetivo, observamos claramente o contraste entre a Criação e o Criador - Toda a Criação é finita. É uma impossibilidade imaginarmos algo que seja finito quanto ao espaço, mas infinito quanto ao tempo. E vice-versa. Infinitude, pois, remete-nos a algo percorrido ou contabilizado. É por isso que o conceito de infinito está, também, nas contas (matemática), e na física. Quando se propõe a percorrer (espaço) e contabilizar (tempo) vem em nossa mente claramente a idéia do infinito.

Isto não tem sentido quando pensamos em Deus. Observe, quando falamos em Deus, tempo e espaço não têm sentido algum. Não se pode pensar e consequentemente atribuir perfeição no sentido absoluto da palavra partindo-se da premissa do percorrido ou contabilizado. Assim, chegaremos a idéias errôneas, a posteriori(*), como a divinização dos números (o que aconteceu aos pitagóricos). Ao contrário, visualizando uma ilimitação (a priori), nos aspectos subjetivos e objetivos, no tempo e espaço (objetivo) e, no amor e justiça - assim como na ira e em todos os sentimentos construtivos (não se esqueça de que zelo, ira e justiça, mesmo nos nossos contextos, andam sempre juntos - subjetivo), não têm sentido quando afirmarmos que não têm fim, mas revestem-se de sentido quando afirmarmos que não têm limites em Deus. Se todos os aspectos de Deus são ilimitados a priori(*), há necessariamente perfeição (em todos os sentidos). Se forem infinitos, não necessariamente!!

Deus é perfeito necessariamente porque é ilimitado. E o mais interessante é que isto não é uma construção da realidade, como tanto querem os novos neopagãos orientais que gostam de física quântica, mas uma tentativa de definição da realidade. A realidade não pode ter surgido por si mesma, nem pode ter existido infinitamente, mesmo que somente em um de seus aspectos (tempo ou espaço). O universo expande-se, de forma ilimitada. Mas, não há ilimitação quanto ao tempo. A Criação é limitada, em parte. Tal limite (no caso, o tempo) torna tudo o que há essencialmente imperfeito. Nem sempre tudo o que existe, existiu. Deus não somente é infinito, mas ilimitado. Não há nenhum tipo de limite para qualquer dos aspectos que compõem sua realidade. Não é que ele seja tão incomensuravelmente grande (infinito) que não se pode medir que vá de um canto a outro.... é que, em se tratando do Criador, isto não tem sentido algum, seja no tempo, seja no espaço, seja no amor, em ira ou justiça!...

Artur Eduardo

sexta-feira, 6 de março de 2009

É uma questão sem propósito.


Depois que o arcebispo da Arquidiocese de Olinda e Recife, Dom José Cardoso Sobrinho, pronunciou que o médico, a equipe e os familiares da menina de nove anos que ficou grávida do padrasto, após ser estuprada pelo mesmo, foram excomungados pela igreja Católica, houve um tremendo levante, um caça às bruxas da imprensa contra o arcebispo.

E ainda para piorar, o mesmo arcebispo acrescentou que o crime do padrasto tinha sido um “pecado menor” que o do médico. Mais lenha na fogueira. E muitos já estão fazendo comparações bizarras com o Bispo que negou a existência do Holocausto.

O fato gerou uma questão no inconsciente coletivo das pessoas: Quem está certo? O Arcebispo ou o médico?

A resposta mais lógica que encontrei foi que tanto o médico quanto o Arcebispo estão corretos. É uma questão sem propósito. O médico fez o certo respeitando a lei, a constituinte, os princípios científicos. O Arcebispo também fez o correto respeitando o que acredita ser correto; as leis de Deus, as leis da bíblia.

E quando o arcebispo diz que não excomungou ninguém, ele está falando a verdade. Ele cumpriu com o seu dever de Arcebispo da igreja Católica. A igreja que ordena a excomunhão daqueles que participam de abortos e foi que ele fez como funcionário dessa mesma igreja e ponto final.

E tudo isso para levantar uma questão antiga; o aborto em qualquer situação é certo ou errado?

A igreja Católica deixou a sua CONCEPÇÃO bem clara.

RESENHA - BRYM, Robert J (et al). Sociologia – sua bússola para um novo mundo. São Paulo: Thomson Learning, 2006, 585p.


O livro ora em questão, a despeito da densidade material, representa um esforço dos autores da UFPE em prover um sólido conteúdo teórico-técnico na preparação de novos sociólogos, visando suprir a urgente necessidade de profissionais capacitados para o ensino requerido pelo Conselho Nacional de Educação.

A partir da obra original, Sociology – your compass for a new world, o livro em português é adaptado e organizado pelos mestres da UFPE para a realidade brasileira. Robert J. Brym – Universidade de Toronto – e John Lie – Universidade da Califórnia, Berkeley –cooperados pelos sociólogos Cynthia Lins Hamlin, Remo Mutzenberg, Eliane Veras Soares e Heraldo Pessoa Souto Maior.

O livro é, segundo o próprio índice (ix – xvii), apresentado em cinco partes: Fundamentos – parte I; Processos Sociais Básicos – parte II; Desigualdade – parte III; Instituições – parte IV; e Mudança Social – parte V.

As subdivisões das partes resultam em um caráter didático da apresentação da disciplina, facilitando a pesquisa temática e interação de cada parte e, estrategicamente, levando o estudante à progressividade do aprendizado.

Voltando-nos, agora, para o capítulo proposto para resenha (pp. 2 – 24), percebe-se o testemunho da socióloga Cynthia Hamlin (História Pessoal, p. 2).

A Dra. Cynthia, em sua peregrinação em escolher uma profissão ao mesmo tempo promissora na garantia das necessidades básicas e dinâmica para mantê-la estimulada na vida profissional, interessa-se pelas Ciências Sociais, influenciada pelo herói Indiana Jones, na área de Arqueologia. A tentativa romântica de fugir da política (causada pela aversão a OSPB), a conduz à Sociologia. Aquilo que constituía-se, a princípio, como refúgio, torna-se o lar da peregrina. A disciplina que parecia difusa e incongruente, arraigada numa pressuposição popular, provoca indagações acerca da realidade dos problemas humanos e da ordem social, e que deveriam ter outras explicações além dos fatores físicos e emocionais.

Chega-se a conclusão de que a Sociologia é o “estudo sistemático do comportamento humano em seu contexto social”, dos “fatores sociais quem estão em jogo nas nossas interações com outros indivíduos e com as organizações sociais”(p. 5). Nesta perspectiva, o fiat lux para Dra. Cynthia a retira da caverna e das sombras, caindo os mitus fundantis inicial.

O relato pessoal dá lugar à apresentação da Sociologia, amparada numa análise experimental de Émile Durkheim (1858 – 1917), considerado um dos pioneiros da disciplina, acerca do suicídio. Com a análise, conclui-se que o suicídio está relacionado às diferenças no “grau de solidariedade social”(p. 5, 6). Os motivos subjetivos para o suicídio são deixados à Psicologia.

O grau de solidariedade social eleva-se numa interrelação sociedade-indivíduo onde ambos são afetados e influenciam-se mutuamente. Na compreensão dos níveis de interrelação das estruturas sociais, desde os círculos menores de relações sociais (Microestruturas – famílias, amizades, trabalho etc) até os níveis mais amplos (Estruturas Globais – relações entre países) formam-se a “consciência sociológica”.

Associado a isto, quanto mais consciente destas estruturas, mais sabedor será o estudioso em perceber a existência dos vínculos entre elas e os problemas sociais, como enfatizado por C. Wright Mills (1916 – 1962). Mas, uma pergunta deve ser feita: como se descobriu esta relação?
A história é o depositário para muitas respostas. Assim, as três grandes revoluções (Científica - ± 1550; Democrática - ± 1750; Industrial - ± 1780), são as origens da Imaginação Sociológica. O que se segue são teorias, pesquisas e valores que tentarão explicar, testar e julgar a ordem e a progressividade (Auguste Comte – 1789 – 1857, o pai do termo sociologia) do mundo como ele é e não como deveria ser(p. 12) das relações estruturais.

É claro que toda teoria possui o seu teórico. É isto que a Dra. Cynthia prosseguirá apresentando num avanço lógico de sua exposição. O Funcionalismo de Durkheim, com sua ênfase no equilíbrio social mantido ou enfraquecido pelas estruturas sociais. Talcott Paterson (1902 – 1979) e Robert Merton (1910 – 2003), ampliaram a teoria durkheimiana. A dialética hegeliana na Teoria do Conflito de Karl Marx (1818 – 1883), onde os “padrões de desigualdade na sociedade” mudam a sociedade ou dá-lhe estabilidade social” através da luta de classes(p. 16). Max Weber (1864 – 192) seria o grande questionador da visão apocalíptica marxista. Não era apenas as classes o motor da história, mas também a política e a religião (p. 17). O Interacionismo de Weber, o Simbolismo de Mead (1863 – 1931 – Universidade de Chicado) e o Dramaturgismo de Goffman (1922 – 1982), contribuem para uma análise subjetiva do desenvolvimento social. É a cosmovisão (Weltanschauung) individual ou coletiva que impulsiona a sociedade, pois a partir dela atribui-se significado às circunstâncias sociais. Assim, neste perspectiva, o fator hermenêutico é preponderante inclusive para os pontos de vistas não-oficiais, minoritários e divergentes (p. 19). O Construtivismo Social, conseqüência do Interacionismo Hermenêutico, onde a análise não é o que o mundo é, mas o que deveria ser, devido às ações recíprocas entre sujeito e sociedade. Embora a autora não use, é possível classificar o Construtivismo Social como uma hermenêutica da suspeita que procura desconstruir a realidade social como uma formação de processos e distribuição de poder envolvidos em atos de criação social. Como exemplo, a Dra. Cynthia evoca a Teoria Feminista – Harriet Martineau (1802 – 1876), primeira socióloga – que apresenta a desigualdade de gênero como fruto do poder patriarcal, responsável pela dominação masculina e subordinação feminina.

Mas a Dra. Cynthia não se detém na história exBrasil. Antes, volta o seu olhar para uma história da Sociologia no Brasil. Para isto, a Faculdade de Direito do Recife e de São Paul têm grande contribuição. Nomes como Gilberto Freyre, Fernando de Azevedo e Delgado Carvalho são os responsáveis pelo ensino da disciplina a partir de 1920. O weberianismo chega com Sérgio Buarque de Holana e com Raimundo Faoro. O marxismo com Caio Prado Junior, nos anos 40. Não faltam nomes como o do socialista Florestan Fernandes, Fernando Henrique Cardoso e sua esposa Ruth Cardoso. O Brasil começara a inserir-se no cenário mundial no campo das Ciências Sociológicas. Temas pertinentes à segmentação racial, social, econômica e até mesmo acerca do gênero, com Nísia Floresta (1810 – 1885), faziam partes dos estudos sociais nos anos 60 e 70, principalmente na USP.

Sem dúvida que as breves considerações da Dra. Cynthia Hamlim nas páginas consultadas constituem-se em bússola que apontam o norte dos que desejam enfrentar o “desafio sociológico”.


Gaspar de Souza

quarta-feira, 4 de março de 2009

Um grande pernambucano na rede

Marcos André Carvalho Lins é escritor pernambucano e colaborador voluntário do site Overmundo e Cultura & Mercado. É fundador ativo do Blog Veneza de Brasileiros. Devido à licença Creative Commons, é possível esbarrar com o pensador em diversos links nesse mundo da internet intelectual. Um dos seus temas predileto é a explanação a respeito da cultura que pode ser visto no "Blog Em tempo...".

Enfatizo ainda os seus trabalhos poéticos (Overmundo e Veneza de Brasileiros) e seus contos (Veneza de Brasileiros). É nos contos que o escritor se sente mais a vontade. O seu livro “O mar que nos separa” é avaliado pela professora de literatura e assessora jurídica, pósgraduada em Gestão de Políticas Públicas, especialista em Filosofia da Arte, Brigitte Luíza, como um livro de contos com as essências da literatura poética.

Marcos André Carvalho Lins é uma nova concepção na literatura pernambucana. Não deixem de ver os seus trabalhos nesses espaços culturais:

Sou em ti porque és em mim.

Sou o silêncio,
A brotar dos teus lábios,
O amor,
A tocar-te a sina,
Tu és a única força,
A empurrar-me ladeira acima,
A vida que nos onera com herdades,
Traduz a flor,
Que agora me invade,
Transmuta em cor,
A dor do indolor destino
( teus braços )
Lindo ser,
Cujo sorriso em si não cabe
Cujo mundo, átrio da paixão
Trafega entre o tudo e o nada
Sem prender-se,
À própria sombra,
Sem eivar de rumos,
O próprio caminho,
Enquanto houver uma lua,
No semblante do dia,
Há de existirem,
Meus olhos,
Tua boca,
A se amarem.
(eternidade)

Texto de Marcos André
Carvalho Lins


terça-feira, 3 de março de 2009

Perco-me


Chaves perdidas,
Passos perdidos,
Lágrimas esmagando face.

Um olhar perdido
No escuro da rua,
No escuro do teu eu.
Não te encontro,
Perco-me.